11-City, a competição de SUP mais longa do mundo — O relato de uma campeã.

Texto: Lena Ribeiro

O 11-City é considerada a competição de SUP mais longa do mundo. São mais de 200km por canais passando por 11 cidades (daí o nome da prova) da região de Friesland no Norte da Holanda. Originalmente esse percurso era feito no inverno em uma clássica competição de patinação, entretanto com as mudanças climáticas os canais passaram a não congelar com espessura mínima que possibilitasse esta prova. Assim, há nove anos a prova é feita de SUP. Participam competidores de todo o mundo que buscam se desafiar em 5 dias de competição com distâncias de cerca de 40km por dia.

Gosto muito de provas longas e já fiz algumas bem duras como a Molokai to Oahu (M2O) no Havaí, mas pensar em fazer isso por 5 dias consecutivos me parecia loucura. Meu patrocinador, a marca holandesa Mistral, é o patrocinador principal do 11-City e me convidou, assim como aos outros atletas da equipe internacional, para participar da prova este ano. Aceitei de imediato, mas quando comecei a pensar nos treinos que teria que fazer e no que seria a prova, confesso que não fiquei muito animada. Como tinha outras provas importantes antes comecei a treinar com foco no 11-City cerca de 2 meses antes. Treinar para provas muito longas é realmente exaustivo, em todos os sentidos. Fisicamente é fácil entender, pois são duas sessões diárias de treinos de até 3 horas. Mas tem também a parte psicológica, aquele momento que você liga seu cronômetro e sabe que vai ficar ali, remando, sozinho, pelas próximas 3 horas, não é fácil. 

A logística também tem que ser muito bem planejada, pois como tenho filhos, estudo, trabalho, preciso que os treinos se encaixem na minha rotina corrida. Sem falar do descanso e alimentação adequados, que são parte fundamentais da preparação. Ter meu marido como técnico me ajuda muito nesse aspecto, pois ele adequa os treinos à minha rotina e às condições de vento etc. de cada dia. Durante essa fase de treinos as condições climáticas onde treino (Arraial do Cabo e Cabo Frio) não foram das mais agradáveis. Treinei inúmeras vezes com frio, vento, chuva, correntes fortes. Parecia ruim, mas durante a competição lembrei agradecida de cada treino sofrido nessas condições.

Esse ano vários brasileiros participaram pela primeira vez do 11-City, cada um com seus objetivos e desafios. Desde que saímos do Brasil a previsão já era de tempo ruim o que se confirmou lá, tornando essa edição a considerada mais desafiadora de todas.

Após cancelamento do primeiro dia de prova devido ao mau tempo (mais de 50 knots de vento e muita chuva), no dia 14/09 foi dada a largada. 50km com muita chuva, frio e vento contra de Leeuwarden até Workum (foi nessa hora, e em alguns momentos dos dias seguintes, que agradeci pelos dias de péssima condições de treinos no Brasil). Depois de mais de 6 horas e meia de prova cruzei a linha de chegada em primeiro lugar, muito feliz pois nem via a segunda colocada atrás de mim, mas nem tive forças de comemorar porque, assim como muitos atletas, estava com hipotermia. Os membros da organização foram incansáveis em tentar deixar o atleta o mais confortável possível, distribuindo cobertores, sopa e café quentes. Também tínhamos massagem todos os dias após a chegada. Salvou a vida!

Mesmo abrindo uma grande e inesperada vantagem de 15 minutos em cima da segunda colocada, minha companheira de equipe, a holandesa e favorita para prova Petronella Van Malsen, sabia que era apenas o primeiro dia e meu maior receio sempre foi a questão dos dias consecutivos de prova, já que nunca havia participado de algo desse tipo.

No segundo dia de prova as condições estavam bem melhores, até um pouco de downwind nos quilômetros finais teve. Foram cerca de 45km de Workum até Franeker, e mais uma vez consegui chegar em primeiro colocando mais 6 minutos de vantagem. Parecia que tudo estava sob controle.

Terceiro dia, acordei simplesmente destruída, meu corpo não me deixava esquecer o que já tinha remado nas 48 horas anteriores. Mas com certeza não era só eu que estava sentido e com essa convicção parti para mais um dia de cerca de 43km. A prova deste dia teve boas condições até os últimos 4km quando um verdadeiro dilúvio caiu no momento que os atletas da elite chegavam a Dokkum. Era muuuuuuita chuva! E ainda tinha os barcos que serviram de alojamento para os atletas durante os dias de competição. Eles chegaram à cidade junto com os atletas e tornaram as águas dos canais ainda mais mexidas. Como estava sentindo o cansaço e possuía boa vantagem de tempo optei nesse dia por me manter juntos das outras atletas. Foi o que fiz, porém nos últimos 5km as atletas Petronella Van Malsen e Siri Schubert travaram uma batalha pela vitória da etapa e eu não acompanhei, terminando assim a prova do dia em terceiro, mas ainda levando vantagem de 17 minutos para o último dia de prova.

O último e decisivo dia foi realizado através do "Time Trial". Cada atleta largava sozinha com 1 minuto de diferença para a próxima em ordem contrária ao ranking até o momento. Nesta prova de 29km de Dokkum até Leeuwarden não era permitido o uso de esteira (vácuo) entre os atletas e os tempos eram calculados individualmente. Eu tinha acordado bem e estava me sentindo confiante, pois tinha uma boa diferença de tempo e só precisava administrar. Enquanto líder, eu larguei por último, mas por volta dos 4km já havia alcançado a atleta que estava em segundo no ranking e largara 1 minuto na minha frente e à nossa frente só havia uma atleta a ser alcançada (esta havia largado 3 minutos antes). Por volta dos 6km tive um galho preso na minha quilha e precisei parar para tirar e acabei caindo na água congelante, perdi duas posições mas logo voltei a remar bem recuperando uma posição e me mantendo a uma distância segura das duas atletas da frente. Sabia que não precisava ganhar, apenas usar a vantagem de tempo que conquistei nos primeiros dias de prova.

Mas nem tudo acontece como a gente planeja. Por volta dos 10km comecei a sentir que não estava rendendo e por mais que me esforçasse não andava como deveria. Comecei a ficar preocupada pois sabia que naquele ritmo mais fraco as outras atletas iriam abrir vantagem de tempo. Ao passar por algumas pontes Américo me passava o tempo de diferença para as atletas da frente. E a distância aumentava cada vez mais... Nessa hora vem o desânimo, o desespero, começo a pensar onde eu errei... Mas rapidamente contive estes pensamentos negativos e só me concentrei em fazer meu melhor. Com certeza, depois de ir tão bem nos primeiros dias seria muito frustrante perder no último dia de prova, mas o que fiz foi tentar dar tudo que tinha, independente do resultado final eu não queria depois pensar que poderia ter dado mais de mim. E foi isso que fiz. A cada remada dava o máximo que podia.

Quando faltava mais ou menos 1km para terminar a prova Américo apareceu na margem do canal e gritou “Tem que dar tudo, senão não vai dar. Tá no limite, dá a vida!” O estômago veio na boca, todos os músculos se repuxaram e a cabeça rodou, eu já estava no limite. Mas a ideia não é superar limites? Aquela era a hora. Então com Américo correndo e gritando pela margem, eu dei meu último sprint até a linha de chegada. Ufa! Acabou. Silêncio.... Pensei; esse foi meu máximo, estou feliz por ter dado tudo que podia. Foi quando a Petronella se aproximou e disse “Você ganhou” eu disse que não sabia e ela confirmou: “Ganhou sim, já fiz as contas”. Nossa, foi uma sensação indescritível.

Foi a primeira vez que participei de uma competição com dias consecutivos de provas tão longas. Foi muito difícil dosar e acabei sentindo muito no último dia. Saio dessa competição muito feliz com a vitória, mas também levo muito aprendizado, não só de competição, mas de vida, como a força dos nossos pensamentos é capaz de superar nossos limites físicos. Com certeza sou outra pessoa depois desta experiência.

E uma coisa que não posso deixar de mencionar é que em uma competição como essa, de vários dias, provas muito longas e condições climáticas difíceis, ter apoio logístico, técnico e emocional faz toda a diferença. Com certeza minha vitória só foi possível porque Américo estava lá comigo. 

Obrigada a todos que me apoiaram e torceram, com certeza remaram junto comigo.

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Lena Ribeiro é Atleta de SUP Race e Va'a. Treinada pelo marido, Américo Pinheiro, é a atual Campeã Brasileira de SUP Race e de OC6 com a equipe Mana Brasil CNCF.

 

 
 
 
 
 
 
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