Molokai Hoe - A travessia de 64km de Canoa Havaiana

Em março deste ano comecei a escrever minha história no Hawaii. Depois de muita luta para conseguir patrocínio e muito trabalho para juntar dinheiro, decidi me instalar na famosa ilha de Oahu. A ilha tem uma boa infraestrutura e fica no arquipélago onde há mais possibilidades de downwinds.

Tive a grande sorte de contar com a ajuda do meu amigo canoísta Laercio Cito, brasileiro que reside em Oahu, e ele me apresentou o remador Kulane, de 28 anos, nativo do Hawaii, especialista nos downwinds (o melhor que já vi) e leme da equipe principal do Waikiki Beach Boys. Logo ele se tornou meu grande irmão e braço direito, pois não se limitou a me passar suas técnicas e conhecimentos – técnicas estas que são bem diferentes das que eu praticava no Brasil. Através dele fui apresentado e acolhido pelo time Waikiki Beach Boys.

O calendário de competições havaianas se divide em duas temporadas. O primeiro semestre de OC1 (canoa individual), e o segundo de OC6 (canoa para 6 atletas). Após três semanas de procura, enfim consegui adquirir minha OC1, voltando para minha rotina diária de treinos, pois um dos principais objetivos estava próximo de acontecer: a travessia de longa distância, Molokai Solo.

Tive praticamente um mês para me adaptar e me preparar para o canal. Fiz inúmeros treinos, downwinds e competições internas na ilha, visto que todo final de semana existem competições. As competições lá são diferentes do Brasil, pois todas são travessias (largam e terminam em praias diferentes). Isso exigiu mais experiência minha de leitura do mar e navegação, conhecimento de correntes e vento.

Neste período também tive o prazer de competir a famosa prova Olukai. Um downwind na ilha de Maui, mas infelizmente este ano não aconteceu o famoso downwind em Maliko, devido às condições climáticas. Tive a felicidade de terminar a prova em 17º lugar.

No dia 8 de março aconteceu a Molokai solo. Mais de 100 atletas presentes na mais importante travessia de OC1 no mundo. São 52 km percorridos entre a Ilha de Molokai a Oahu, no famoso canal Ka'iwi Channel. Nessa prova o uso de um barco de apoio é item obrigatório e mais uma vez meu grande amigo Kulane estava presente para ser meu apoio.

Foi uma prova que simplesmente levei meu corpo e mente ao extremo. Senti muitas dores e cãibras. Alguns momentos mal consegui fechar meus dedos no remo. Mas com muita superação concluí o canal em 4 horas e 26 min, sendo o 51º colocado. 

Duas semanas após a Molokai tive honra de competir o Kauai World Challenge. Um revezamento entre dois remadores que iriam percorrer 55 km, dividido em quatro pernas - na qual um remador remava a primeira perna e seu parceiro o aguardava na segunda perna, assim sucessivamente. Nessa ocasião eu competi com Jane Mckee, uma das mais respeitadas remadoras do Hawaii. Para se ter uma ideia, ela tem minha idade de experiência na canoa havaiana, 25 anos. Completou inúmeras travessias no Ka'iwi Channel. Uma pessoa doce e especial e através dela participei de inúmeras provas e conheci grandes referências da canoa. Dona do verdadeiro espírito Aloha, que sonha conhecer e competir no Brasil. A partir dessa oportunidade nos tornamos grandes amigos. Conquistamos o segundo lugar nas duplas mistas e ficamos em primeiro em nossa faixa etária.

Um momento marcante nessa viagem foi poder participar da chegada da Canoa Hokule'a. Uma canoa ancestral que deu a volta ao mundo, durante 3 anos, levando um pouco de conhecimento da cultura havaiana por onde passou, sendo apenas guiada pelas estrelas e movida pelo vento, exatamente como faziam os antigos povos polinésios.

Praticamente todas as equipes de canoa havaiana estavam presentes nesse momento. Nós, do Beach Boys, estávamos presentes com seis canoas. Para mim foi uma experiência emocionante, pois era um momento único. Inúmeras canoas na água, mais de 25 mil pessoas em terra à espera da H?k?le?a. Foi muito bonito ver como o povo havaiano sabe preservar e se orgulhar de suas tradições.

Participei também de uma prova muito bonita e tradicional, restrita somente aos locais. Uma competição em uma Sailing Canoe (canoa a vela) em uma das etapas promovidas pela Hawaiian Sailing Canoe Association, a convite da Jane. A primeira etapa aconteceu em Big Island em abril e termina no Kauai. As canoas param em Maui, Molokai e Oahu ao longo do caminho.

Nossa etapa foi a sexta corrida de oito corridas que compõem a temporada de canoa a vela. Nossa largada foi em Kailua Beach, em Oahu. Navegamos 88km do lado leste da ilha e terminamos no North Shore, em Haleiwa, completando quase meia volta na ilha, com o tempo de 4 horas 23min. Nossa canoa é chamada Kamali`i O Ke Kai, que significa Crianças do Mar em havaiano.

Após esses eventos iniciamos a temporada de OC6. Sendo que os três primeiros meses são apenas de competições de sprints, todos os finais de semana, onde conquistamos medalhas. Um fato curioso é que todos os treinos de OC6 eram de sprints, onde após cada tiro os remadores eram trocados de banco e canoa, assim tendo que mostrar habilidade e rendimento em qualquer condição. Confesso que tive algumas dificuldades nesses momentos, pois o clube tinha uma técnica de remar própria e conseguir me adaptar a esse tipo de remada e mostrar resultado foi difícil. Mais em nenhum momento eu desisti, conquistando assim vaga na equipe principal do Waikiki Beach Boys.

Enfim chegou o momento mais esperado da temporada. A famosa competição Molokai Hoe. Uma travessia de 64km da ilha de Molokai até Oahu, percorridos em águas abertas, em Ka'iwi Channel. Competir com o Waikiki Beach Boys tem uma sensação especial. Foram muitos meses de preparação, treinando, passando por altos e baixos no time.

Tenho certeza que o time deu o seu melhor e fomos construindo o resultado no decorrer da prova. Não tivemos uma largada tão boa, mas conseguimos um bom resultado. O canal este ano foi um pouco atípico porque não teve vento, mas nem por isso foi flat. A água se movimentava muito. Terminamos a prova em 17º. Só tenho que agradecer a todos do Waikiki Beach Boys pela confiança e oportunidade única de competir a temporada de OC6 com eles.

Assim foi escrita minha temporada de 2017 no Hawaii. Tenho a certeza que fui e voltei um outro homem e atleta, e tudo que imagina e sonhava hoje é realidade. Só tenho que agradecer por todos que me ajudaram de alguma maneira a tornar esse sonho realidade.

Mahalo Hawaii.

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Pedro Henrique Almeida Weichert é Atleta de Canoa Havaiana. Campeão do Circuito Aloha Spirit e W2 Downwind 2015, Vice-campeão Brasileiro de OC6 2015. Campeão Brasileiro de OC2 2016. Vencedor do Prêmio Aloha Spirit Awards 2016 na categoria Revelação Masculino no Va’a. Foi 4º colocado no Brasileiro de OC1 e, nesse ano, participou da temporada Havaiana de OC1 e de OC6.

 

 
 
 

 

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